Bolsa de Mulher (Sempre aos Domingos)
Sempre aos Domingos
Bolsa de Mulher (procurando borboletas)
Por que carregamos tantas coisas dentro de nossas bolsas? Além dos objetos pessoais – pente, espelhinho, batom, óculos, chicletes, cartões de crédito, débito, estacionamento, saúde, clube, algumas moedas (que amo de paixão) tenho enfrentado maus momentos com a quantidade de papel que se acumula dentro de minha bolsa. Já pensei em tudo. Ou eu rasgo o papel de onde ele veio, ou finjo que não vi a nota e a deixo sobre o balcão ou peço à caixa, gentilmente, que a jogue fora. Esta ultima opção tem ajudado bastante, mas não o suficiente. Fico com vergonha de mandar lavar o carro. Tenho uma sacola dentro do porta-malas, que vai acumulando papéis. Fico receosa de jogar no lixo... Pode ser que tenha um documento importante no meio deles... Bom, pelo menos as pessoas saberão por onde andei nesta vida...
Outro dia eu descobri uma maneira de amenizar este problema. Tem que ter cara de pau, mas é altamente “funcionante”. A receita é simples. Ao esperar numa fila qualquer, ou num consultório, sento-me confortavelmente (se tiver lugar) e começo a retirar os papéis da bolsa. Depois, um a um, separo os que ainda vou precisar – um dia posso precisar, ora... – e o resto vou rasgando, um a um. Depois, sem disfarçar nadinha, levo as mãos cheias de papel até o lixo mais próximo. Saio de alma lavada e bolsa levinha... As pessoas olham pra mim como se eu fosse um ser de outro mundo. Entre um sorrisinho e outro, aproveito para retocar o batom e, ao final, de bolsa limpa, triunfantemente sento-me bem quietinha, como se nada tivesse acontecido.
Todos sabem que eu aprecio muito as matas do Convento, aqui em Vitória. A cada primeira quarta-feira do mês, tem uma missa campal, que reúne famílias inteiras em busca de saúde para seus doentes. Eu tenho um lugar cativo, escolhido por mim, pra assistir à celebração, bem no canto esquerdo e um pouco longe das pessoas e do altar. Neste cantinho, eu posso chorar à vontade. Ultimamente virei uma cachoeira de lágrimas; acho que estou compensando os anos que não chorava...
Desta vez eu tive companhia. Ao meu lado, uma senhora de cabelos branquinhos, com uma bolsa de pano, olhava-me, ao mesmo tempo em que cantava os hinos, rezava e enfiava as mãos enrugadas dentro da enorme bolsa. Retirava um pedaço de pão e comia. Levantava-se e ia até o grande bebedouro, de onde tirava um copo de plástico da bolsa e tomava copos e copos de água. Depois, voltava e sentava-se ao meu lado de novo. Em poucos minutos o ritual de me olhar, colocar as mãos dentro da bolsa, pegar um pedaço de pão e comê-lo, levantar-se e tomar água era repetido, até o final da missa. Eu juro que tentei concentrar-me...
Quando eu estava indo embora, uma mãozinha bateu no vidro do carro. Eu sou extremamente solícita com os velhos. Saí do carro e quem era? A minha companheira de missa... Aí olhei bem pra ela. Cabelos branquinhos, saia longa de pequenas preguinhas, uma blusa branca e a enorme bolsa. Com um sorriso bonito, ela me sai com essa: - Nossa... Como a senhora é forte! Tão velhinha e ainda dirige! A senhora me dá uma carona até lá em baixo? Eu não entendi nadinha... Velhinha? Como assim, perguntei-me. Tem uns fios dos cabelos que já estão ficando acinzentados e as primeiras rugas estão começando a aparecer... Mas velhinha? Bom, se é assim que ela me vê, que assim seja... Acomodei a senhora dentro do carro, coloquei-lhe o cinto de segurança e começamos a descer a estrada estreita do Convento. - Sabe, eu tenho 81. A senhora deve ter uns 80, né? Tenho 10 filhos, todos vivos. Venho sempre aqui fazer piquenique. Adoro! Quando chegamos no local onde eu deveria deixá-la, segurando fortemente a sua bolsa de pano, calmamente me diz:- Pode me deixar aqui! Eu vou até a lanchonete comer alguma coisa! Tô morrendo de fome!
Continuei meu caminho às gargalhadas! Ganhei o dia e pensei em comprar uns lanchinhos para colocar na minha bolsa, quando for ao Convento novamente!
(Antes de tornar-se uma borboleta, a bela se esconde envolta numa bolsa..) Bom domingo!
Sunny L (Sonia Sancio Landrith)