Não é simples se apaixonar




NÃO É SIMPLES SE APAIXONAR
- Fabrício Carpinejar
Paixão não é banal. Paixão não acontece com frequência.
Tenho um amigo que se apaixona semanalmente. Ele está se enganando. Não é paixão, mas flerte, interesse, atração, carência, desespero para se casar.
Paixão acontece poucas vezes na vida. Devo ter me apaixonado somente seis vezes em quarenta anos.
A paixão é a nossa chance de chegar ao amor, jamais uma certeza. Pois a paixão é conquista, já o amor depende da convivência. A paixão é sempre à primeira vista, o amor vem em parcelas.
Se me apaixonei meia dúzia de vezes, amei apenas duas vezes ao longo de meus romances. De amar mesmo, a ponto de desistir de meus preconceitos e de minhas exigências e doar espaço para o tempo de alguém.
A paixão é rara. De sua raridade, surgirá o amor, mais único ainda. 
O que posso garantir é que a paixão é uma devastação. Não tem como não notar. Você esquece quem você era e aonde ia. Você esquece o que fazia e o que queria.
Seus contatos do celular e das redes sociais desaparecem. Nada mais interessa. É um apagão, a sua memória morre - persistem a imaginação e a fantasia.
A paixão é um blecaute da personalidade.
Um redemoinho passa pela cidade de seus olhos, levando a civilização de pretendentes. Um furacão destrói a importância de seus pertences e a sua forma de se relacionar com o mundo.
Você que é cético passa a ter fé, confiar em magia, adotar hábitos de supersticioso.
Você que é avarento estará disposto a filantropias improváveis.
Você que é tímido é capaz de cantar num microfone em praça pública.
Você que é cafajeste torna-se fiel como uma rolha de vinho.
As defesas e restrições estão postas abaixo.
É um dia perfeito que interrompe o calendário, o envelhecimento, as mágoas, as cismas.
É um beijo melhor que todas as palavras que procurava antes.
Não há como confundir o diagnóstico. Não existem dúvidas do encanto que se abateu.
A paixão traz uma força inacreditável. O sangue bebe energético do ar. As pernas levitam.
Experimenta um superpoder: enxerga as auras além dos rostos, adivinha os pensamentos além do som, entende as piadas além do gesto.
Não precisa comer, não precisa dormir, não precisa trabalhar, não precisa arrumar a casa, não precisa atender telefone, não precisa responder mensagens.
Desfruta da imunidade do otimismo. Aguenta emendar noites e permanece disposto. Não consegue parar de transar e não reclama do cansaço. Vira um bicho do instinto. O olfato é a sua realeza.
Emagrece, mas não perde o brilho.
Adoece, mas não perde a saúde.
Com a falta de alimentação e de cuidados, qualquer pessoa ficaria desidratada e baixaria o hospital, menos o apaixonado.
O apaixonado encontra a inexistência perfeita, ser cada vez menos para ser o outro.
Publicado no jornal Zero Hora
Caderno Donna p. 46
Porto Alegre, 5 e 6 de março de 2016.