Não me siga, estou perdida!

Foto Pesquisa Internet

 

Para levar a Nina ao hotelzinho, tenho que subir uma ladeira íngreme. No meio dela, exatamente entre a calçada e o pavimento, tem um pé de mamão cheio de frutos.  São coisas da natureza que encantam nossos olhos. As vilas antigas tinham pés de chuchu nas cercas das casas, nunca faltou um boteco que vendesse balas de jujuba. Os moradores da roça chegavam cavalgando e usavam suas melhores roupas,  faziam suas compras e eram carregados de volta para casa pelo cavalo, no final da tarde, sem conseguir o equilíbrio necessário. Muitos dormiam no meio do caminho de terra, felizes por terem consumido toda a cachaça que cabia em seus cérebros.  Isso me leva a tantas lembranças, tudo por causa de um mamoeiro no meio da rua.

Trago a querida Bimba de volta e a abraço; vejo minhas amiguinhas brincando no final da tarde, as imensas mesas de estudo onde fazíamos o dever de casa... Subíamos os morros sem dificuldade e, lá de cima, enquanto chupávamos mexericas do pé, olhávamos a beleza de nossa terra... Aquele cheiro de café coado, pão de casa e manteiga, a busca de amoras silvestres, as pescarias e a busca de minhocas para pegar as piabas e mandis no velho Timbui, o moinho que rodava, rodava e fazia chuá... E aquele aconchego das estradas de eucalipto, as vassouras feitas à mão, os colchões que eram costurados com palha de milho... A dádiva da chuva abençoada que me levava a andar nas corredeiras, os barquinhos de papel, as tardes de bordado na casa da Iraides, onde bordar eu não bordava, mas ia na varandinha de sua casa e já ensaiava os primeiros olhares para a natureza exuberante, que já me convidava a escrever  alguns versos... E aquele primeiro namoradinho? Como eu gostava dele... Mas não escrevemos nosso destino; apenas o seguimos.

Eu tinha uma alegria que tinha cor: era clarinha e brilhava como estrela em noite de lua cheia. Adorava ouvir os passarinhos cantando e não saber onde estavam. E depois, tinha aquela bendita reza na igreja, onde nossos pais nos obrigavam a ir todas as noites. Bete, Cecilia, Maria Luisa... E eu ficava procurando “cadê as outras” que nunca apareciam... Mas eu juro que ainda sinto o cheiro das flores que o Pedro Zapani nos dava para enfeitar o altar. Eu sabia rezar algumas orações, mas quando chegava minha vez na “Salve, Rainha” a coisa ficava difícil. Os corredores do colégio de freiras eram tão limpos que dava medo de andar neles. O legal mesmo era que a gente ia trocando de sala no colégio, à medida que passávamos de ano. Começamos numa casinha do lado de fora e acabamos no segundo andar. Nossa... que saudade da minha amiga Creusa... A gente sonhava com o dia que teríamos nossa casa, nossos filhos... Era legal e tão inocente...

Hoje, domingo de manifestações, fui comprar algumas frutas e passei por várias pessoas.  Será que elas se lembram de seu tempo de criança? Acho que sim... Este tempo deve estar guardado.

Fui me lembrando e escrevi tal e qual meu pensamento fluiu. É mesmo, não me siga, estou perdida...

Sunny L (Sempre aos Domingos, agosto de 2015)
Obs. Hoje é um dia de reflexão sobre o nosso país, nosso governo. Que venha o melhor para todos os brasileiros... Está sendo um período muito difícil.
 
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