Aquilo tudo era bom...


Laquê, Rayito de Sol, Biorene! Chá de camomila, óleo Nujol, pomada Minâncora! Canga, Botinhas, Long-Plays! Telefone com extensão, cuba-libre, touca de meia! Biquini de tecido, batom rosa claro, fita nos cabelos! Anágua, Melhoral, Peteca! Bilboquê, prancha de isopor, lenços coloridos! Ray Conniff, Caetano, Vinicius, The Beatles, Festivais!

Pra começar, a vida era boa demais. A absoluta falta de dinheiro era um mínimo problema para quem simplesmente estava acostumado a viver de bolsos vazios. Um par de pernas e boa saúde era o suficiente para andar a pé quase que todo o tempo. Ninguém cobrava nada de ninguém, a ajuda era mútua e se faltava algum trocado para o pão com mortadela, principal fonte de alimento, sempre tinha alguém indo “filar a bóia” na casa de alguém. As portas eram abertas para todos. 

Andar a pé era o que havia de mais comum e dificilmente topava-se com pessoas fora de forma. Inexplicavelmente a maioria era magra, hoje perfeitamente compreensível. Nada como o tempo para explicar tantas duvidas que ficam e, a cada dia, aprendemos mais e mais.


Cerveja, nem pensar. Ninguém podia arcar com as preciosas latinhas de hoje e dentre as bebidas mais comuns, havia cuba-libre, rabo de galo,martini, campari, conhaque, batidas de todos os tipos, devidamente divididos entre a turma que gostava. Os que não eram chegados a bebidas alcoólicas faziam um suco de groselha que era um delícia. De madrugada, o café quentinho e pão com manteiga na padaria da esquina tinha cheiro de amor em dia de festa. 

Havia uma camaradagem entre os amigos, só que manifestada de outra forma. As roupas eram emprestadas entre as meninas e um acessório a mais resultava numa roupa completamente nova e ninguém notava que tinha sido usada por outra pessoa. De três peças era possível fazer combinações intermináveis. Uma penteava a outra, nada de manicure ou salão de beleza. Havia uma técnica de alisar cabelos que era incrível: o ferro de passar. O máximo que se conseguia era um cheiro de cabelo queimado! Mas a outra técnica, a de fazer uma touca e colocar uma meia velha na cabeça, dava mais resultado. O pescoço ficava tão duro e tenso à espera dos encontros de noite que na hora de sair doía tudo, mas o importante mesmo era se fazer bonita.

Havia beijos de todas as cores e tamanhos. Tímidos, às vezes. Ousados, outras. O temor de engravidar não permitia o sexo completo entre os namorados, mas era deliciosamente bom estar juntos e fazer “tudo” até onde pudessem. 

Com a chegada da bossa nova, as mentes se abriram mais ainda. A música fazia parte da vida dos jovens o tempo todo e era muito lindo ver os rapazes com um “violão” debaixo do braço. Dançar de rosto colado era bom e a entrega era simplesmente bela. As mais belas canções que se tem conhecimento no mundo são daquela época. Claro que ainda existem canções lindíssimas hoje e que nos falam muito ao coração, mas a emoção de “manhã, tão bonita manhã... vc quer ser minha namorada... ah que linda namorada você poderia ser...” – Sem preço!

Encontrar os amigos nas praias era muito interessante. Ninguém combinava nada. Nove horas da manhã e a turma ia se encontrando, distribuindo as cangas coloridas na areia. Mais tarde esta mesma canga seria lavada e transformada em uma blusa linda pra dançar de rosto colado nas domingueiras.

Os papos eram deliciosos, simples, ria-se de tudo e de qualquer coisa. A água do mar tinha cheiro de mar limpo e a areia era repleta de conchinhas de todas as cores e formatos. Dentro das bolsas de palha sempre havia um chiclete ou uma pastilha forte para ter sempre o hálito gostoso. Uma maçã era um manjar dos deuses e poucos se davam ao luxo de tê-las em casa. Banana era mais barato! 


Deu-me uma vontade imensa de ter vivido plenamente aqueles anos dourados. Eu os vivi em parte... Prateados, digamos.

Sunny L


Observação : Os anos dourados são considerados os de 1945 a 1964. Foto da Net.