Amor: questão do tempo

Vitoria-ES-Brasil- Praia do Iate

 

É difícil falar de amor, escrever sobre amor, sentir amor. Amar está fora de moda, de cogitação, de sonhos. Quem ama é considerado um bobo da corte: não se faz mais seresteiros com um violão debaixo do braço cantando à janela da amada. Não se dança mais coladinho, poucos entrelaçam as mãos para caminhar, não se diz “eu te amo”. Errado? Certo! Fala sério, adianta a gente se esborrachar de tanto amor “aqui dentro?” -  De que adianta o coração palpitar, a saudade bater, a vontade ficar, a lágrima da emoção promover uma limpeza em nosso rosto, olhos e alma? 
 
Amar quem? Um homem amar uma mulher? Mas como, se por este amor se mata, se agride, se rouba! Ou uma mulher amar um homem? Mas como, se para estar com ele, ela faz uso da competição, esmurra, troca cor de cabelos, olhos, muda o rosto, finge que é linda,  quer mostrar quem é melhor na cama, compara e adora o que ele tem dentro de sua conta bancária? A época de “um bangalô e nós dois” já passou... ou era mesmo “um amor e uma cabana”?
 
O perfume que ficou no frasco que ele sentia e levava pra casa o seu cheiro, impregnado dentro do corpo e da alma já foi substituído por notebooks, celulares, I-pods, mp6, i-phones, chats, webcams. Que mulher quer saber de um homem no seu pé, babando ao dizer “eu te amo ?” Que homem quer saber de uma só, se tantas existem à sua disposição, noite e dia? Beijar muito é bem melhor que amar!
 
Será que esta geração sabe o que é fazer um piquenique em dia de domingo, andar de bicicleta com uma cestinha de flores,  trepar no pé da goiabeira, andar descalço em estrada de chão batido, comprar um tecido e ir na costureira para que ela o faça antes do baile do sábado (e não esquecer de ir fazer ajustes nele pelo menos umas seis vezes), espalhar olhares por todo um lugar à procura de alguém por quem o coração balança, acordar bem cedinho só pra ter mais tempo de pensar naquele abraço apertado, no beijo furtivo e na dança que a fez flutuar, pensando que fosse uma Cinderela? 
 
Coisa boa era dia de arrumar o guarda-roupas... Encontrava-se sempre alguma peça para doar; naquela época a verdadeira partilha era algo que fazia parte do dia-a-dia... Será que os nossos filhos fazem idéia do que é preparar um enxoval, bordar uma toalha, aprender piano às terças e sextas, fazer dever-de-casa deitado no chão, teatro no sótão, com folhas de bananeiras como palco... Ah, o amor! Nada disso é invenção... Era a prática diária do amor no sentido mais completo do seu significado.
 
“Eu te amo!” - Quantos de nós dissemos ( e praticamos) essas palavras mágicas? Amar não é só a relação homem-mulher. Podemos amar de outras formas... O problema está justamente onde e de que maneira. É preciso dar um jeito de reencontrar o Amor, porque sinto que ele se perdeu e se afogou dentro da vaidade, da ganância, do poder de ter dinheiro, da fantasia do virtual, de achar que dinheiro é tudo,  da falta de respeito ao ser humano, que foi feito para amar e ser amado, apenas.
  
Sunny L