Aprendendo a dizer não

Aprendendo a dizer Não


“Sábado não posso, porque vou ficar doente” – Danusa Leão


Eu tenho uma admiração enorme pelas pessoas que sabem dizer não. Quando eu era adolescente, tinha uma aliada dos Nãos que era de colocar qualquer outra no chinelo: minha amada mãe. Não existia um dia sequer que ela dissesse Sim.

Hoje eu rio demais quando me ponho a recordar o festival de Nãos na minha vida.
- Mãe, me deixa ir ao piquenique com as meninas?
- Não.
- Por que não?
- Porque não!

E o assunto se encerrava aí, nem adiantava insistir porque o sim nunca viria, nem se ajoelhasse a seus pés.  Minha mãe tinha prazer em dizer não. Era quase que um costume. Se dissesse sim, estragava. E com isso minhas irmãs e eu deixamos de ir ao circo, ao piquenique, ao carnaval, ao baile, ao cinema, aos passeios. Era uma proteção que nos doía muito. Hoje podemos entender as atitudes dela e de nosso pai, o grande mentor de Nãos de nossas vidas.

Com o tempo, fomos aprendendo a dizer Sim para a vida, para os estudos, para os amigos, para todos. O Não só existia dentro de casa e quando crescemos vimos muitos nãos serem apagados do vocabulário de nossos pais, dando lugar à liberdade e confiança.

Nossos pais, é preciso deixar muito claro, eram protetores e muito, muito bons. Mas eu acho que nasceram com um Não agarrado na língua. Nem por causa de tantos Nãos ficamos doentes ou malucas; somos normais e nós os amamos com a mesma intensidade dos que eram liberais com seus filhos.

Hoje é fácil dizer Não quando a gente quer se recolher num cantinho e não quer conversa com ninguém. As desculpas são as mais loucas.

– Não posso porque vou ficar doente
– Não posso porque vou viajar para a Etiópia
– Não posso porque vou à ópera
– Não posso porque vou ao aniversário do filho do primo
– Não posso porque tenho que decorar um livro inteiro
- Não posso porque estou com dor de barriga, de dente, de cabeça, de cotovelo!



Em muitas pessoas existe um lado de querer ficar só, ao contrário de outros que não sobrevivem se não estiverem rodeados de gente, nem que sejam fantoches. Amo um papo inteligente!  Amo um filme, onde posso prestar atenção ao que é falado, anotar o que gostei de ouvir... Amo um bom livro, com três travesseiros enormes encostados em minha cama, enquanto vou enrolando os enormes cachos inexistentes de meus cabelos e devoro as suas páginas como se fossem se apagando depois que meus olhos passeiam em suas letras.

Ah, os Nãos que estão impregnados em minha mente e que não fluem... O Não que eu gostaria de aprender a falar ainda não chegou.  Como bem disse um filósofo um dia, “As palavras foram inventadas para esconder os pensamentos.”

(Ah, como eu gostaria de dizer Sim, explodindo de alegria ao falar esta palavrinha mágica...)


Sunny L


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