Doce ônibus de algodão

Doce ônibus de algodão

“Como posso ter uma vida contigo se eu tenho outra vida?” (Vendedor de algodão doce)
Não fico reclamando o que passou; eu não sou a única que já viveu experiência dolorosa. Passou, passou! Cheguei à conclusão que a perfeição do tempo é mesmo incrível. Pessoas que amava demais, valores imensuráveis e sorrisos que fazia questão de receber se afastaram e hoje são sombras; esqueci como eram as suas feições.

Nos últimos dias aprendi a usar moedas! Eu sempre gostei de moedinhas. Meu sobrinho comprou uma máquina de lavar roupas com elas. Fantástico, isso! Aprendi a dar-lhes valor para meu uso pessoal e não para distribuí-las, como eu fazia. Com elas paguei dezenas de trechos de passagens de ônibus. Lotados, suados ou com pessoas caladas demais ou outras que falam muito. Neles encontrei solidariedade, sorrisos verdadeiros, gentilezas, pessoas de caras muito fechadas e eu também tive medo. Queria deixar o tempo agir e esquecer aquele menino com o revólver na minha cabeça, que virou minha vida de pernas pro ar em segundos. Vou andar de ônibus, todo mundo anda, vou usar moedas, vou comprar picolé e quem sabe, até um algodão doce!

Nosso parceiro de algodão doce entrou no ônibus lotado e sentou-se atrás de minha poltrona, ao lado de uma moça bonita, de óculos escuros, com um fone de ouvido. Estava claro que ela não queria contato com o mundo exterior. O rapaz, baixinho e muito simples, disse um “Bom Dia” que, sinceramente, eu teria respondido. Era um Bom Dia feliz e de bem com a vida. Foi aí que ele começou a contar a dele para a moça, que não se mexia.

- Tenho cento e vinte contos, da venda do meu algodão doce. Tô levando pra casa; a minha filha de quatro anos tá me esperando. Prometi que vou dar uma boneca que ela viu na televisão. Mas não a boneca de Papai Noel! Sou eu mesmo! Ó!!! Óia os calos da minha mão! Ó! Òia os meus pés cheios de bolhas de asfalto quente que nem água fervendo! Mas deixa  eu oferecer alguma coisa, deixa! Quer, eu compro um refri...- Quer não? Água, então! - Pepsi! Todo mundo gosta de Pepsi! - Não quer? Mas eu quero lhe oferecer alguma coisa. Mas a senhorita não quer, né? - Então vou  fazer versos. Eu sou poeta. - Não posso ficar triste que faço versos. Rola de tudo enquanto eu choro. - Como eu posso fazer parte da sua vida se eu tenho outra vida?

Sem resposta, virou-se para o lado, enquanto segurava com força os seus algodões tão doces quanto a vida; mesmo que seu rosto me mostrasse que havia chorado.


Sunny L