As canções que você fez pra mim



As canções que você fez pra mim
®Sunny L

A força das letras de musica na vida da gente tem o mesmo significado de um poema apaixonado, só que nos embalam com sons. Quantas palavras entram em nossa mente e quantas fantasias são vivenciadas através delas! Quem ainda não sentiu o gosto do pecado no “amanhã de manhã vou pedir o café pra nós dois”, a certeza da consumação do pleno abraço na noite que passou e trouxe o “gosto de maçã” bem cedinho;  o café esfriou e deixamos de ir trabalhar... Pensando bem! E pensando bem, não há como evitar sentir o corpo dar uns pulinhos, suspiros e tremores lá pelos lados do coração – e adjacências corporais – quando deixamo-nos reviver esses momentos especiais.

Cada canção tem o seu lugar e cabe nos milhões de bytes de nosso cérebro. Aí, nesse lugar quentinho e bem cuidado, guardamos as musicas de roda, os hinos das igrejas, as alegres marchinhas de circo e de carnaval. Crescemos e de vez em quando nos pegamos cantarolando um ou outro pedaço “daquela canção” tão viva como noite estrelada ou chuvosa e luas e sóis que nós mesmos os criamos da forma e do tamanho de nossa sensibilidade.

“Gosto quando teu olhar vem passear no meu corpo” – saber que cada poro seu é invadindo por um olhar deliciosamente permitido e ainda ter a certeza que gosta mesmo?  Ou “joga fora todo amor que lhe dei”, você se imagina dentro de um saco de lixo gigantesco  e nele você se encolhe toda, esperando ser jogada no compartimento do caminhão barulhento que vai engolindo suas ilusões.  “Ele me disse para ser feliz e passar bem”, mas depois de tantas musicas que dançam nos corações bandidos é difícil lembrar que “além do horizonte existe um lugar...”

“Que mundo maravilhoso nós vivemos” Armstrong disse-nos um dia e nunca mais nos esquecemos daquela voz rouca que se imortalizou, nos faz ter certeza da existência de campos de alfazema, araras azuis, brilho no olhar, árvores frondosas, ilhas coloridas, rostos colados, beijos na ponta do nariz, valsas, sonhos e verdades. Quando ouvimos – e vemos -   jovem noviça subindo e descendo morros ao som de musica, não há como não desejar estar lá nos “campos verdes do meu lugar”, de fazer roupas com restos de cortinas, de namorar. “Sem lenço, sem documento” nos mostra como podemos usufruir o que é ser verdadeiramente livre. Desenhar um sol amarelo, nuvens brancas, com a ponta dos dedos em caminhos de vento...

“Eu sou a outra na vida dele” existe e sempre existirá para milhares de casais, que silenciosamente partilham uma solidão a dois. Poucos são os que realmente vivem juntos na saúde e na doença e aquele vestido branco foi substituído por outras cores, para que a paixão dure enquanto outra não resplandeça e faça de nós parte de redemoinhos -  e relacionamentos relâmpago que nós mesmos criamos.

“Quero sua alegria escandalosa... por não ter vergonha de aprender como se goza” – Como era intenso abrir o volume do som de Ivan, sem, medo de saber que se pode ensinar alegria, sensualidade escandalosamente boa de aprender e de ouvir e de sentir e  tudo que se tem direito.

A lua do sertão é mais intensa, tem mais brilho e “não há, ó gente, oh não, luar como este do sertão”, porque é no sertão que não existem torres de iluminação, semáforos, prédios imensos com todas as luzes acesas, faróis no rosto da gente. É lá que a árvore adquire o brilho natural de ser viva e bela, e é lá que ela cumpre sua missão de dar frutos, folhas, sombras, galhos, beleza e podemos (ainda) levar um radinho de pilha, enquanto nos sentamos à sua sombra. Bem faz o poeta ao dizer que a lua adentra a mata, verdadeiramente.

As batidas de nossos sons preferidos acalentam todos os desejos, paixões, decepções, vícios, alegrias, sensualidade e amor. É só deixar que se tornem reais. É uma questão de tempo, acontece com todos, até com “a mulher do carroceiro que fugiu com o leiteiro e foi ser feliz”.





 Domingo nublado de 2013, relembrando a crônica de 2011 em repaginação. Bom domingo!