Toda uma vida



Toda uma vida!
®Sunny Lóra





Havia vários dias que não conseguia dormir porque tinha uma “pedrinha” gelada passeando no meu estômago. Era uma sensação que não sabia identificar, mas eu tinha vontade de ir pra bem longe... Como se fosse resolver! Incomodava tanto que as atividades mais simples estavam sendo prejudicadas. Tomei coragem e resolvi pesquisar o que estava acontecendo comigo. Fora os medos latentes, normais em quem faz exame mais acurado, acordei bem cedo e fui, cheia de coragem, descobrir aquela pedra que já estava formando cachoeiras de água nos meus olhos.
Enquanto me angustiava na sala de espera, morrendo de fome que já durava 13 horas, nem me mexia do lugar. Na sala, ninguém falava nada e o som que se ouvia era apenas o da apresentadora bonita, mostrando-nos como se faz aquele prato novo, cheio de calorias e gordura. Enquanto minha cabeça latejava, morrendo de medo do meu exame, era impossível não ver aquelas fatias de bacon, quiabo, camarão, frango, muito verde, pimenta e as mãos que ela queimou, na panela, sem querer. Estranhei a ausência da cachorrinha da apresentadora, que é uma guerreira, com certeza, como eu. Fiquei imaginando como pode experimentar tantos pratos e não engordar, enquanto eu me esforço nas saladas e grelhados e brigo com a balança, que não quer conversa comigo. 

Eu sou muito emoção, como meu pai, um italianinho de Santa Tereza, aqui nas montanhas lindas do nosso Estado. Nem olhei pro lado quando me coloquei em posição de total concentração, com os olhos fechados. Acho que neste momento todos estavam olhando para mim, de mãos postas, rezando baixinho uma Ave-Maria! E daí? A pedrinha gelada é minha e eu faço dela o que eu quiser! Até rezo pra que ela suma de vez!

E passa-se o tempo... e o meu exame, que eu tanto quero saber o resultado... 

E aí, entra ela. Na frente, o marido atrás, com uma bengala. Ele sentou-se atrás de mim, quieto e assustado. Ela, ainda muito bonita, com colares e um anel enorme no dedo, foi cuidar dos papéis do plano de saúde. Logo, ele entrou para o seu exame e ela ficou paradinha no meio da sala.   Pareceu-me perdida por alguns segundos. Não sei o que ela viu em mim, mas sentou-se do meu lado. Fiquei impressionada! Ela, com 83, ele, 86. Cuida sozinha da casa, lava, passa, dá os remédios para ele nas horas certas. A filha amada foi morar em outro país, depois de uma semana que o casalzinho mudou-se do Rio de Janeiro para cá. 

- O apartamento tem uma cozinha enorme, minha filha! Mas a gente come fora, então não precisamos dela. O que eu quero mesmo é dormir e sonhar com as viagens que fiz. Era tão bom... Eu adorava. Parecia uma princesa em dia de casamento! Eu ouvia tudo, atenta ao chamado do meu nome. E que fome... e o meu celular, que nem tocou? Por que eu tenho este tijolinho no estômago? Finalmente, depois de conhecer na Rússia, a Praça Vermelha, em Paris, o Louvre (ah, que inveja!) e a Torre Eiffel  e em  Las Vegas todos os cassinos, deixei a doce senhora com um abraço bem gostoso. Eu adoro abraçar os velhinhos... na verdade, eu amo demais os mais velhos.
Fiz o exame. A sala tinha cheiro de limpeza, a moça que me atendeu foi muito gentil. O médico, um senhor educado, fez o exame inteiro em total silêncio. E eu tremendo. De frio e de medo. Caí num pranto convulso quando o médico me disse que eu sou perfeita!  Quando voltei, depois de lavar o rosto e ganhar mil carinhos do pessoal da clínica, a senhora que me ajudou a passar os intermináveis minutos antes do meu exame, não estava mais na sala de espera.

A pedrinha de gelo do meu estômago não é nada, não...é só dorzinha de solidão.


(Remake - Maio de 2012)
imagem Erkan Torun