Cronica de A Gazeta - Caderno PENSAR


Agradecendo ao Jornal "A Gazeta", de Vitória-ES, através do Caderno PENSAR, que me acolhe e acredita no meu trabalho na área de literatura.


Saudade, Medo e Muito Humor!



Desenvolvemos um jeito de conversar com o papai, que nos deixou há algum tempo, muito a contragosto - dele e de nós. Visitamos seu túmulo no alto da colina, um lugar que tem mangueiras, quaresmeiras, eucaliptos e muitas flores. Mesmo na altitude de Santa Teresa, o calor tem sido intenso. Usamos o filtro solar, mamãe pegou sua sombrinha e eu o meu inseparável chapéu branco. Cumprimentamos avôs, tios e primos que estão fazendo festa no céu, honrando a nossa espalhafatosa maneira italiana de ser e seguimos até onde papai, a Nona Cecília e o Nono Ú (apelido que eu adorava – Eu chamava o Nono e ele respondia “ÚUUUU”) descansam desta vida. Com saudade, contei as novidades e lágrimas escorriam livres.

- Pois é, pai, hoje é o aniversário do Dante, seu bisneto. Ele tem olhos azuis e é brabo como um italiano que se preza! Lara está uma menina linda e o Davi, o Gabriel e a Olivia são figuras incríveis! A Ana Clara vai chegar no dia 5. Que pena, né, pai, que o senhor não vai poder estar com a gente...
Sou desligada e sei que preciso mudar isso. Nesse dia, por sexto sentido talvez, resolvi olhar à minha volta, enquanto mamãe abraçava nosso pai em pensamentos. Minhas pernas tremeram quando olhei pela primeira vez. Espírito não era, pois não tinha aura! Era de carne e osso! Apenas sua cabeça aparecia, de pé, dentro de um túmulo vazio. No sopé do morro, outro homem, de bermuda cinza e blusa preta. O medo tomou conta de mim.

- Estes filhos da mãe vão nos assaltar. Temos a sombrinha e as duas alianças da mamãe, o meu chapéu, a minha câmera fotográfica adorada e o meu velho anel de cinco aros. Não, estes filhos da mãe vão estuprar a gente, vão bater na minha mãe... Eu juro que mato estes caras! Pensando bem, vou matar só o que está dentro do túmulo. Eu vi primeiro!

Ele vinha em nossa direção, quando eu, com a máxima calma, falei com a mama :
- Mãe, seguinte... Tem um cara seguindo a gente. A senhora me dá a sua mão e eu seguro na barra da sua saia. Vamos sair daqui agora, bem depressa, tá?

Os 84 anos de minha mãe mostram claramente a dificuldade de andar. Mesmo assim, rezamos uma Ave Maria e agradecemos ao papai por ter nos “afastado do mal”. Saímos do campo santo tremendo da cabeça aos pés! Dirigi até a parte superior do lugar, onde um rapaz alto e magro saía de lá, com as mãos nos bolsos, tranquilamente! Rindo muito, mamãe e eu começamos a imaginar o que ele teria ido fazer dentro do túmulo vazio... Rezar é que não foi, né?



Sábado de sol de março, 2012