Até o próximo pecado







Até o próximo pecado


A cidade é cercada de vales e muitos morros, alguns deles ainda com a beleza natural da floresta tropical. Outros foram engolidos por magníficas casas, que nunca irão substituir sequer uma das folhas de suas árvores e orquídeas destruídas.

Frei Angélico chegou a Santa Teresa muito jovem, para assumir as atividades da igreja como vigário. Logo fizemos uma amizade bonita. Ele era envolvente, simpático, culto e logo se tornou muito querido de todos. O único problema que eu enfrentava era na hora da confissão. Falava meus pecados entre os dentes e du-vi-de-o-dó que ele tenha escutado sequer um deles! Se bem que pecado é uma questão de identificá-los... Aprendi o que significa pecado verdadeiro há muito pouco tempo e não gostei nada desta descoberta.

Com a chegada do moço das Minas Gerais, ele fez uma revolução da cidadezinha. Pequeno e muito franzino, poeta e excelente pregador, com ele aprendi aos meus primeiros passos na área de secretariado, ainda menina. Ele me dava as certidões de nascimento das crianças e me ensinava a registrar os dados nos imensos cadernos. Eu adorava fazer este trabalho e exercitava a minha caligrafia, uma de minhas paixões. Nada tira o valor de uma poesia, carta ou texto escritos à mão!

O Frei Angélico conseguiu a façanha de levar um enorme “altofalante”, estrategicamente posicionado ao lado dos sinos da torre altíssima. Às seis da tarde, ele colocava músicas clássicas e começava a convidar os amigos para a missa das 7. Eu ficava fascinada ouvindo tantas coisas bonitas que ele falava. O melhor lugar pra ouvir bem era o banco do jardim – a esta altura do ano, (e o ano inteiro!) cheio de rosas e margaridas.

Na Semana Santa, muitos padres vinham ajudar o vigário. A semana inteira era dedicada à vida de Jesus e sua crucificação. As pessoas eram mais ternas, falavam mais baixo, tinham no olhar uma bondade que enternecia. Os altares cobertos com grandes panos da cor violeta tapavam os santinhos. Eu morria de pena deles, escondidos no escuro. A procissão do Senhor Morto era o ponto alto da semana santa. Os sermões eram tão eloquentes que arrancavam lágrimas de todos. Os paralelepípedos da pequena cidade, colocados um a um, recebiam pés cansados, pés jovens, pés de homens e mulheres, enquanto seguravam velas que iluminavam a escuridão da pequena cidade, com poucos postes acesos. De vez em quando, a procissão era parada e centenas de olhos molhados ouviam um canto triste numa voz maravilhosa, enquanto ela descia um pano com o rosto desfigurado de nosso amigo querido, Jesus Cristo.

Nós, as crianças, tínhamos participação em todo o ritual, coração batendo forte e olhinhos assustados. Ao final da procissão, Jesus Morto era colocado no altar-mor, onde imensas filas iam beijá-lo. Lembro-me perfeitamente e com nitidez o rosto de todas as pessoas ao acariciar este Homem que veio mudar o mundo. Eu me escondia num cantinho e olhava cada beijo que era dado na belíssima imagem, de tamanho real. Tinha gente que beijava os pés, as mãos... mas eu gostava mesmo era de ver quem tinha a coragem de beijar-Lhe a testa machucada de espinhos.

Voltávamos correndo pra casa, onde uma torta de Semana Santa nos esperava, com arroz e azeite. A vontade de comer carne era grande, mas o cheiro da torta se espalhava até nos sinos e no altofalante da igreja.

Esta semana eu pedi à Nega pra me enviar a receita da torta feita por nossa mãe. Pelo menos, lendo os passos, eu faço de conta que estou fazendo a torta! Abaixo, a receita agora dividida com vocês, exatamente como a recebi da minha amada Nega, que guardou no freezer um pedaço pra mim.


Torta de palmito e bacalhau (da Mamãe e Nega)

Cozinhar o palmito e deixar escorrendo bem, espremer com as mãos pra não sobrar água. Depois, refogar o palmito em todos os temperos: azeite, alho, cebola, cebolinha, salsinha. Depois colocar o bacalhau, (que ficou na água na geladeira, mudando todos os dias, para tirar bem o sal durante 3 dias). Depois aquecer o bacalhau pra limpar é mais fácil! O bacalhau é desfiado e refogado junto com o palmito que já está no fogo. Adicionar 3 ovos ligeiramente batidos. Azeitonas sem caroços. Juntar batatas cozidas e amassadas mais ou menos umas quatro. 1 lata de sardinha ao óleo. Mexer tudo muito bem. Fica uma massa bem ligada. Untar um pirex com azeite e colocar a massa. Bater 3 ovos, jogar na torta e espalhar rodelas de cebola. Vai ao forno pra dourar. E depois é só se deliciar. Servir com arroz branco.


Nota :
J.J.Benitez, em sua obra de ficção, “Operação Cavalo de Tróia”, volume I, por algumas longas páginas tirou-me o fôlego e muitas noites de sono, ao ler detalhes dos últimos dias de Jesus Cristo na Terra. (Coleção recomendada para quem aprecia boa leitura.)

Sonia Rita Sancio Lóra - (Filha de Santa Teresa-ES)