Tempo de sentar à mesa aos domingos, todos juntos. Arroz, feijão, bife, salada, batatas fritas e farofa. Quiabo, tomates, maionese, macarrão, guaraná. Rádio ligado nas estações de música caipira. Relaxamento total, conversas simples, risos soltos. Televisão em preto e branco. Mamãe nos servindo, um pedaço de carne para cada um, em pedaços iguais, sem esquecer que a gema do ovo amarelinha e a moela eram do papai. Os outros miúdos eram colocados na canja para de noite, depois da missa. Um pudim de leite condensado com calda de caramelo era um manjar dos deuses. Tortas de amendoim, pão de casa, nata de leite no lugar de manteiga. Se mamãe conseguisse esconder a nata por algum tempo, ela fazia uma manteiga deliciosa. Tinha também o leite fervido com uma gota de limão e sal e colocado dentro de um pano de parto bem limpinho. Era pendurado na torneira da cozinha e no outro dia um novo queijo, delicioso!Tempo de ir à missa de vestido passado, anáguas, fitas nos cabelos. Tempo de brincar de queimada, ferrinho e amarelinha na praça do jardim. Não nos preocupávamos em ver as horas, mas tínhamos certeza da hora de parar e ir para casa, suadas e felizes. Depois do almoço, fazer o dever da escola na varanda de tábuas corridas, ouvindo o chuá do moinho. Pescar piabas e mandis e descobrir minhocas nos cantinhos da cerca do vizinho. As hortas eram interessantes. Uma coisa que me chamava atenção era como os pés de alface não utilizados viravam uma planta linda, cheia de flores brancas e pequenas nas pontas. Subir o vale até os pés de jabuticaba, mexericas e laranjas. No caminho, comer araçás maduros. Andar de bicicleta e cair mil vezes. Ganhar bijuterias que as moças não usavam mais. Pegar revistas emprestadas. Ler livros de contos de fadas. Estudar a tabuada e nunca aprender. Catar uma flor de camomila ou marcela, fazer um chá e enxaguar os cabelos louros. Usar o primeiro sutiã, mesmo que não houvesse seios escondidos. Sentar-se como uma mocinha, ter modos de senhorita. Dançar no primeiro baile, usar um batom cor de rosa, um saltinho de dois centímetros, que já era alto demais. Estudar, casar, ter filhos...
- Eu estava falando de coisas de hoje?

Essa Tal Felicidade


Devagar, contorno uma imagem adormecida
Sigo as passadas que talvez sejam as minhas,
Deixo um rastro leve nesta palavra comprida
Desconhecida, como tantas quietas Capelinhas...

Benditos momentos de alegrias corriqueiras
Debruçados sobre as nossas tantas fantasias
Fatias de grandes sorrisos como companheiras
Palmilhando céus azuis em todas as travessias.

Mãos afagadas ao longo de toda uma vida
Abraços envoltos nas sombras deslumbrantes
Essência de amor acolhido em missão cumprida
Graciosa e travessa, bato as minhas asas flutuantes!

Se eu não fosse assim tão atrevida, ouviria sua voz!
Felicidade pode ser gente, imagem, papel de seda
Luzes faiscantes de viver, tempo que passa veloz
Danças de céus, horizontes vermelhos na alameda...


Sunny Landrith